⭐ Belém — Um dia entre rios, história e chuva amazônica
Nesta postagem, vou falar de um roteiro prático de 4 horas, para quem tiver pelo menos 8 horas de conexão, num voo na cidade de Belém, capital do Pará.
O avião deixou Manaus ainda de madrugada, às cinco, e pousou em Belém quando o sol começava a dourar a Baía do Guajará. O relógio nos oferecia oito horas de intervalo antes do voo para o Rio — tempo suficiente para sentir o pulso da capital paraense, essa cidade onde a Amazônia se mistura com a memória portuguesa.
Desembarcamos no Aeroporto Val-de-Cans com a leve pressa de quem sabe que cada minuto importa. A ideia inicial era seguir direto ao Mangal das Garças, com seu borboletário de centenas de espécies. Mas havíamos tido uma experiência nada agradável no dia anterior em Manaus, quando tivemos que socorrer um bicho-preguiça que teve as suas garras arrancadas por maus-tratos.
Então, preferimos deixar que as borboletas nos encontrassem soltas pela cidade ou apreciar a presença das graças — nas praças, nos telhados, no vento úmido que antecede a chuva amazônica.
Era quarta-feira de cinzas. Belém ainda despertava da ressaca dos festejos, muitas portas fechadas, muitos passos lentos. Assim, seguimos para a Cidade Velha, onde casarões de influência portuguesa guardam histórias que resistem ao tempo, mesmo quando a conservação não acompanha a beleza das fachadas.
Ali, no conjunto conhecido como Feliz Lusitânia, as atrações surgem como páginas de um livro antigo. E foi uma escolha acertada: logo a chuva amazônica — aquela que costuma cair no horário do almoço — nos alcançou mais cedo. Abrigamo-nos na Catedral da Sé, onde o barroco e o neoclássico convivem como velhos amigos.
Os candelabros de bronze iluminam a nave com uma luz que parece atravessar séculos. É dali que parte, no último dia do Círio de Nazaré, a imagem de Nossa Senhora rumo à Basílica.
Quando a chuva amansou, seguimos para a Casa das Onze Janelas, antiga residência de um senhor de engenho, hoje centro cultural às margens do Rio Guamá.
Pelos seus salões repousam obras de modernistas brasileiros, como Tarsila do Amaral, que parecem dialogar com o rio que corre ao lado.
No píer, a Corveta Solimões — embarcação que já desbravou rios amazônicos — transformou-se em museu. As suas dependências revelam histórias de navegação, defesa e vida ribeirinha.
Poucos passos adiante, o Forte do Presépio, de 1616, oferece uma das vistas mais bonitas para o Rio Guamá e para o Mercado Ver-o-Peso.
Os seus canhões originais guardam silenciosamente a memória da colonização portuguesa, complementada pelo Museu do Encontro, que narra esse período com precisão.
Ao lado, o pequeno Museu do Círio explica, de forma didática, a grandiosidade da maior festa religiosa do Brasil.
E o Museu de Arte Sacra, instalado no antigo Colégio de Santo Alexandre, abriga cerca de 300 peças — uma das coleções mais importantes do país.
Após caminhar por essas ruas carregadas de história, seguimos ao Mercado Ver-o-Peso, onde a cidade pulsa em cores, aromas e vozes (onde também pudemos ver o maior bando de urubus por metro quadrado 😱).
De lá, caminhamos até a Estação das Docas, antigo armazém portuário transformado em um centro de gastronomia e lazer — a ideia é mais ou menos semelhante ao bonaerense Puerto Madero, na Argentina.
Restaurantes se alinham diante da Baía do Guajará, oferecendo pratos típicos como pato no tucupi e filé marajoara. Não era hora de almoçar, mas era impossível não imaginar o sabor.
Se você estiver por ali ao meio-dia, vale subir a Avenida Presidente Vargas até a Praça da República, onde o Theatro da Paz ergue-se como símbolo do Ciclo da Borracha.
Dica: Sentimo-nos inseguros em vários pontos da cidade, principalmente nas imediações desta praça, onde havia uns caras suspeitos. Acostumados a reconhecer bandidos de longe no Rio de Janeiro, guardei a máquina fotográfica e, aproximamo-nos de um guarda que estava no Teatro da Paz. Eles sentiram que não ia rolar e foram embora.
Inspirado no Teatro alla Scala, já recebeu companhias europeias no século XIX e ainda hoje impressiona com sua elegância neoclássica.
A próxima parada foi na Basílica de Nazaré, a neoclássica igreja construída onde foi achada a imagem de Nossa Senhora e ponto derradeiro da Festa do Círio de Nazaré.
A última parada antes do retorno ao aeroporto foi o Parque Emílio Goeldi, inaugurado em 1895. Um refúgio verde que funciona como centro de pesquisa da fauna e flora amazônicas.
Entre árvores centenárias, aquários com peixes da região e recantos silenciosos, escolhemos observar apenas a flora — uma despedida suave antes de voltar ao mundo urbano.
O parque fica a cerca de 20 minutos do Aeroporto Val-de-Cans, e o percurso total do nosso passeio somou aproximadamente 4,5 km — uma pequena jornada por uma cidade que guarda séculos de história, rios que nunca dormem e uma chuva que chega sempre no momento exato.
Abaixo disponibilizo o mapa deste percurso que fizemos na capital do Pará:
Leia também
✨ Postagem anterior: Manaus | Amazonas: Roteiro pelo centro histórico, os mercados, praças, igrejas e arquitetura amazônica
✨ Próxima postagem: Vitória | Espírito Santo: praias, mirantes e cultura em roteiros pela capital capixaba
✨ Voltar para a página da série: Roteiro Amazônia | Índice da Série
- 00:19
- 0 Comments
